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terça-feira, 20 de novembro de 2012

Texto Dramático (características)


É constituído por:
Texto principal composto pelas falas dos actores que é ouvido pelos espectadores;
Texto secundário (ou didascálico)  que se destina ao leitor, ao encenador da peça ou aos actores.
É composto:
  • pela listagem inicial das personagens;
  • pela indicação do nome das personagens no início de cada fala;
  • pelas informações sobre a estrutura externa da peça (divisão em actos, cenas ou quadros);
  • pelas indicações sobre o cenário e guarda roupa das personagens;
  • pelas indicações sobre a movimentação das personagens em palco, as atitudes que devem tomar, os gestos que devem fazer ou a entoação de voz com que devem proferir as palavras;
Acção:
  • é marcada pela actuação das personagens que nos dão conta de acontecimentos vividos
Estrutura externa:
  • o teatro tradicional e clássico pressupunha divisões em actos, correspondentes à mutação de cenários, e em cenas e quadros, equivalentes à mudança de personagens em cena.
  • O teatro moderno, narrativo ou épico, põe completamente de parte as normas tradicionais da estrutura externa.
Estrutura interna:
  • Exposição – apresentação das personagens e dos antecedentes da acção.
  • Conflito – conjunto de peripécias que fazem a acção progredir.
  • Desenlace – desfecho da acção dramática.
Tipos de Caracterização:

  • Directa:
  1.  a partir dos elementos presentes nas didascálias, da descrição de aspectos físicos e psicológicos, das palavras de outras personagens, das palavras da personagem a propósito de si própria.
  • indirecta
  1. a partir dos comportamentos, atitudes e gestos que levam o espectador a tirar as suas próprias conclusões sobre as características das personagens.




Luis sttau Monteiro - vida e obra

Luís Infante de Lacerda Sttau Monteiro nasce a 3 de Abril de 1926, em Lisboa. Aos dez anos de idade, vai viver para Inglaterra acompanhando o pai que era jurista e embaixador de Portugal.

Em 1943, regressa ao nosso país devido à demissão do pai do seu cargo diplomático, por Salazar. Licencia-se em Direito, pela Universidade de Lisboa, mas exerce advocacia por pouco tempo.

Parte, de novo, para Inglaterra onde casa com uma Inglesa e onde se torna corredor de Fórmula 2. Retoma a Portugal e começa a colaborar em publicações como a revista Almanaque ou o suplemento «A Mosca» do Diário de Lisboa, criando a célebre personagem Guidinha cujas redacções são várias vezes cortadas pela Censura.

Em 1960, por incentivo do seu amigo José Cardoso Pires, publica o romance Um Homem Não Chora, seguindo-se, em 1961, Angústia para o Jantar e a peça Felizmente há luar! Esta última é distinguida com o Grande Prémio de Teatro mas a sua representação é proibida pela Censura, acabando, no entanto, por se tornar um êxito.

Em 1967 escreve “A Estátua”, que lhe vale a prisão, no Aljube, pela PIDE  e em 1968 publica “A Guerra Santa” que o conduz à prisão de Caxias, por seis meses, onde redige  “As mãos de Abraão Zacut”.

Na década de 70, adapta ao teatro, com Artur Ramos, o romance A Relíquia, de Eça de Queirós, representada no Teatro Maria Matos e participa, enquanto membro do júri, no popular concurso televisivo «A Cornélia».

Em 1982 publica o romance “Agarra o Verão”, adaptado como novela televisiva com o título “Chuva na Areia”.

Morre a 23 de Julho de 1993, em Lisboa.








terça-feira, 13 de novembro de 2012

"Mensagem" - Poema "O Monstrengo" e análise


O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»


«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»


Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»


Análise:

O Monstrengo está para a Mensagem como o Adamastor  está para  Os Lusíadas.
No caso da Mensagem, existe um rigor na colocação do poema sobre O Monstrengo pois este é colocado exactamente entre 21 poemas antes e 21 depois pois este episódio passa-se a meio da viagem.

"Mensagem" - Poema "Dom Afonso Henriques" - Análise


Pai foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!

Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!





Análise:

Este poema é uma "prece" a Dom Afonso Henriques.
O sujeito poético, assumindo-se como voz do colectivo português,  que pede a Dom Afonso Henriques que dê ao seu povo o exemplo, a força e a bênção, porque "Hoje a vigília é nossa" , somos nós que temos que ser cavaleiros contra "novos infiéis", fantasmas do adormecimento colectivo.

"Mensagem" - poema " O dos Castelos" e Análise


A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,

A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.


Análise

Tal como neste poema da “Mensagem”, a estrofe em “Os Lusíadas” atribuindo-lhe uma missão predestinada. Mas em "Os Lusíadas” essa missão é ditada pelo “Céu” que quis que Portugal vencesse na luta contra os mouros.

"Mensagem"- Características da obra

Quinto Império:
  • É esta a mensagem de Pessoa: a Portugal, nação construtora do Império no passado, cabe construir o Império do futuro, o Quinto Império. E enquanto o Império Português, edificado pelos heróis da Fundação da nacionalidade e dos Descobrimentos é termo, territorial, material, o Quinto Império, anunciado na Mensagem, é um espiritual. “E a nossa grande raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas daquilo que os sonhos são feitos.

O mito:
  • As figuras e os acontecimentos históricos são convertidos em símbolos, em mitos, que o poeta exprime liricamente. “O mito é o nada que é tudo”, verso do poema “Ulisses”, é o paradoxo que melhor define essa definição simbólica da matéria histórica da Mensagem.
Carácter épico-lírico:
  •  A Mensagem é uma obra épico-lírica, pois, como uma epopeia, parte de um núcleo histórico, mas apresenta uma dimensão subjectiva introspectiva, de contemplação interior, característica própria do lirismo.

Sebastianismo

  • A Mensagem apresenta um carácter profético, visionário, pois antevê um império futuro, não terreno, e ansiar por ele é perseguir o sonho, a quimera, a febre de além, a sede de Absoluto, a ânsia do impossível, a loucura. Dom Sebastião é o mais importante símbolo da obra que, no conjunto dos seus poemas, se alicerça, pois, num sebastianismo messiânico e profético.

"Mensagem" - Estrutura da obra

A estrutura da obra

Assim, a estrutura de Mensagem, sendo a dum mito numa teoria cíclica, a das Idades, transfigura e repete a história duma pátria como o mito dum nascimento, vida e morte de um mundo, morte que será seguida dum renascimento. Desenvolvendo como uma ideia completa, dando-lhe a forma simbólica tripartida - Brasão, Mar Português, O Encoberto. Que se poderá traduzir como: os fundadores, ou nascimento, a realização, ou a vida, o fim das energias, ou a morte, essa conterá já de si, a próxima ressurreição, o novo ciclo que se anuncia - o Quinto Império. Assim, a terceira parte, é toda ele cheia de avisos, pressentimentos.
E ai sempre perpassarão, com um repetido fulgor, sempre a mesma mas em modelações diversas, a nota da esperança: Dom Sebastião, O Desejado, O encoberto.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

"Mensagem" de Fernando Pessoa

Mensagem a epopeia lírica:


A Mensagem, cujas poesias componentes foram escritas entre 1913 e 1934 – data da sua publicação, é sem dúvida a obra-prima onde pessoa lapidarmente imprimiu o seu ideal patriótico, sebastianista e regenerador. É um poema nacional, uma versão moderna, espiritualista e profética de Os Lusíadas.

A Mensagem poderá ser vista com uma epopeia. Porque parte dum núcleo histórico, mas a sua formulação sendo simbólica e mítica, do relato histórico, não possuirá a continuidade. Aqui, a ação dos heróis, só adquire pleno significado dentro duma referência mitológica. Aqui serão só eleitos, terão só direito à imortalidade, aqueles homens e feitos que manifestam em si esses mitos significativos. Assim, sua estrutura será dada pelo que, noutras ideias/forças desse povo: regresso do paraíso, realização do impossível, espera do messias… raízes do desenvolvimento dessa entidade coletiva.

Os antepassados, os fundadores, que pela sua ação criaram a pátria, e ergueram a personalidade, separada, ou plasmaram na sua altura própria; mas Mães, as que estão na origem das suas dinastias, cantadas como “Antigo seio vigilante”, ou “humano ventre do império”; os heróis navegantes, aqueles que percorreram o mar em busco do caminho da imortalidade, cumprindo um dever individual e pátrio (realização terrestre duma missão transcendente); e, finalmente, depois dessa missão cumprida, dessa realização. Na era crepuscular de fim de vida, os profetas, as vozes que anunciam já aquele que viria regenerar essa pátria moribunda, abrindo-lhe novo ciclo de vida, uma nova era – o Encoberto.


Reflexões do Poeta em "Os Lusiadas"

Em "Os Lusiadas", o plano de reflecxões do poeta são extremamente importantes, uma vez que é nele que estão expressos os conselhos e as críticas do sujeito poético dirigido aos Portugueses. Nessas reflexões, há louvores e queixas, por um lado poeta realça o valor das honras e da glória alcanças por mérito próprio dos portugueses e, por outro, lamenta que muitos se arrastem pela ganancia do dinheiro, pela cobiça, ambição e tirania.

O poeta faz a apologia das letras e da cultura; exorta D. Sebastião a dar continuidade à obra grandiosa do povo português; confessa estar cansado de não ser reconhecido artisticamente, revela medo da fragilidade da condição humana, alertando para os perigos que a todo o momento espreitam e que o homem tem de enfrentar.

As cousas do Mar

As estrofes situam-se no canto V de "Os Lusiadas" e no que se referre à estrutura interna situa-se na narração, quando as naus estão em Melinde e Vasco da Gama conta ao rei Mouro, as viagens de Lisboa até Melinde. Neste caso especifico, o Gama relata os perigos de viagem, mais concretamente o fogo-se-Santelmo e tromba marítimo.


Trata-se de uma descrição dinâmica dos fenómenos onde sobressai recursos estilísticos como o pleonasmo como reforço do saber empirico, adjectivação expressiva e verbos expressivos que nos permitem ter a sensação visual.


A descrição dos fenómenos, em especial da tromba marítima é tão pormenorizada que permite construir uma imagem visual.
Entrelamçam-se nestas estrofes 2 tipos de saberes: o saber empírico e o saber cientifico.


Camões foi um humanista, conhecedor de toda a cultura greco-latina e, paralelamente de todo o conhecimento científico, soube entrelaça usando a sua experiência de viajante por mar, o conhecimento empírico, através do qual é possível descrever minuciosamente os fenómenos observados directamente.
Neste âmbito, o saber empírico passou a ser valorizado e contribuiu fortemente para o enriquecimento do saber científico

O Velho do Restelo



 


Vasco da Gama é o narrador que canta ao rei de Melinde – narratário – a história de Portugal.

Esta narrativa é feita em “in media res” e no decorrer da conversa surge uma estreita correlação entre o episódio “Despedidas em Belém” e o episódio “O Velho do Restelo”.

Ponto d situação: aglomerado de pessoas no porto, para se despedir dos entes queridos que partiam para a Índia. No meio desse ambiente emocionado, destaca-se a figura imponente de um velho que, com a sua "voz pesada", ouvida até nas naus, faz um discurso condenando aquela aventura cujo propósito, segundo ele, é a cobiça, o desejo de riquezas, poder e fama.

O velho interveio junto dos navegadores portugueses que se aprestavam para partir para a empresa marítima da Índia, no sentido de os alertar contra os perigos da ambição em excesso e da cobiça pelas riquezas vindas do Oriente. Diz o velho que, para enfrentar desnecessariamente perigos desconhecidos, abandonavam os perigos urgentes do seu país, ainda ameaçado pelos mouros.


Simbologia

Representa uma corrente desfavorável à expansão para o Oriente, mais tolerante em relação à guerra no Norte de África. Traduz, ainda, o medo do desconhecido e a hesitação perante a novidade.
As falas das mães e das esposas representam a reacção emocional àquela aventura, o discurso do velho exprime uma posição racional, fruto de bom senso da experiência (“tais palavras tirou do experto peito”). É a expressão rigorosa do conservadorismo.
Como o Velho do Restelo, pensavam muitos naqueles tempos, assim como muitos pensam hoje em relação a assuntos semelhantes, como a conquista espacial ou a manipulação genética, por exemplo.
Quando representa a voz do bom senso e da fria razão assume a dimensão de personagem alegórica – personagem que defende um ideal/princípio.
O seu discurso denuncia a suposta irresponsabilidade dos marinheiros que se deixavam levar por promessas fantasiosas, pela vitória, para uma aventura com consequências trágicas
Poder-se-á referir que todo o discurso desta figura se contrapõe á ambição explicitada ao longo da viagem realizada por Vasco da Gama. É o negar do sonho, da ambição, da capacidade de iniciativa.
logo no seu discurso há:
  • A voz do senso comum, dado que ele defendia a quietude simples, a rotina, a anulação do desejo.

  • A negação do mar porque as suas palavras não reflectem o desbravar dos mares, mas sim, a ligação à terra, às lutas em terras travadas com os Mouros no norte de África. Ignora a natureza aventureira e bem sucedida dos portugueses.

  • Um mito humanístico, pois valorizava as batalhas no norte de África, nomeadamente das conquistas em Marrocos.


O Sonho de Dom Manuel

IV Canto: Estrofe 74

«Eu sou o ilustre Ganges, que na terra
Celeste tenho o berço verdadeiro;
Estoutro é Indo, Rei, que nesta serra
Que vês, seu nascimento tem primeiro.
Custar-te-emos contudo dura guerra;
Mas, insistindo tu, por derradeiro,
Com não vistas vitórias, sem receio,
A quantas gentes vês, porás freio.»

IV Canto: Estrofe 76
Chama o Rei os senhores a conselho,
E propõe-lhe as figuras da visão;
As palavras lhe diz do santo velho,
Que a todos foram grande admiração.
Determinam o náutico aparelho,
Pera que, com sublime coração,
Vá a gente que mandar cortando os mares
A buscar novos climas, novos ares.




Análise:

As duas estrofes (acima referidas) descrevem 2 momentos subsequentes: no primeiro, o sonho do rei D. Manuel, no qual lhe apareceu o Rio Ganges para profetizar sobre Portugal, sendo que, mesmo depois de dar ao portugueses "dura guerra",este grande povo lusitano iria dominar novas terras ultramarinas: "Mas, insistindo tu, por derradeiro. / Com não vistas vitórias, sem receio. / A quantas gentes vês, porás freio."

Na segunda estrofe, a atitude imediata do rei, avisando os súbditos sobre os feitos gloriosos eles reservados, o que os anima e faz partir de Lisboa em direcção ao Oriente, ávidos dessa glória, como se pode ler em "Determinam o náutico aparelho./ Pera que, com sublime coração. / Vá a gente que mandar cortando mares / A buscar novos climas, novos ares."
Na perifrase "náutico aparelho"  cuja expressividade é a de realce do meuo por onde esse "aparelho" iria movimentar-se : o mar.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Mitificação do Herói


O herói desta epopeia é colectivo  os Lusíadas, ou os filhos de Luso, os portugueses. Nas estrofes iniciais do discurso de Júpiter no concílio dos deuses olímpicos, que abre a parte narrativa, surge a orientação laudatória do autor.
O herói da obra, os portugueses. Monumento aos Descobrimentos Portugueses em Belém, Lisboa, Portugal
O rei dos deuses afirma que desde Viriato e Sertório, o destino dos valentes portugueses é realizar feitos tão gloriosos que façam esquecer os dos impérios anteriores.

No final do poema surge o episódio da Ilha dos Amores, recompensa ficcional da gloriosa caminhada portuguesa através dos tempos. E é confirmado o receio de Baco de as suas façanhas de conquista serem ultrapassadas pelas dos portugueses.
Camões dedicou sua obra-prima ao rei Dom. Sebastião de Portugal. Os feitos inéditos dos descobrimentos portugueses e a chegada ao «novo reino que tanto sublimaram» no Oriente, foram sem dúvida os estímulos determinantes para a tarefa, desde há muito ambicionada, de redigir o épico português.

mitologia de "Os Lusíadas"

A Mitologia
A introdução da mitologia, do maravilhoso pagão, era própria do género épico. só que em Camões a mitologia greco-latina introduzida ultrapassa a função simples adorno poético exigido pela regra de "imitação". No canto I, os planos da viagem e dos Deuses vão acompanhar-se sempre, intimamente relacionados , constituindo, no seu conjunto, a ação central da obra.

A realização do 1.º Concilio marca o momento exato em que os Deuses são chamados a intervir, sobre o futuro dos homens que navegam em mares até então desconhecidos, num empreendimento novo, extremamente importante, no qual vêm dando mostras de coragem e valor ao enfrentarem múltiplos perigos.
Reconhecendo o valor de tais humanos, os deuses reúnem-se, a pedido de Júpiter, para deliberar se devem ou não devem ajudar os navegadores a encontrar um porto amigo em que possam repousar e recuperar alento para prosseguirem numa viagem em que os Fados haviam já determinado viesse a ser coroada com êxito.

Gera-se então no Olimpo, local onde se reuniram os deuses um violenta discussão como descreve Camões na estrofe 35:

" Qual Austro fero ou Bóreas, na espessura,
De silvestre arvoredo abastecida,
Rompendo os ramos vão da mata escura,
Com impito e braveza desmedida;
Brama toda a montanha, o som murmura,
Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:
Tal andava o tumulto, levantado
Entre os deuses, no Olimpo consagrado."

Marte, Deus da guerra e velho apaixonado de Vénus, têm então uma intervenção decisiva em que incita Júpiter a não voltar atrás com a decisão que já havia tomado de ajudar os navegadores portugueses:

"Não tornes por detrás, pois é fraqueza
Desistir-se de cousa começada"

As razões que movem os diversos deuses na sua tomada de posição são devidamente apontadas por Camões. Júpiter, limita-se a cumprir, ou antes, fazer cumprir as decisões dos Fados, pois sabe, à partir que é inútil lutar contra eles; aceita-as, de resto, pois reconhece o valor lusitanos.


Quanto a Vénus, ela imagina que, ajudando os portugueses, poderá vir a lucrar: eles são descendentes dos romanos e, portanto, de Eneias, seu filho, de quem herdaram uma língua latina; são, por outro lado, conhecidos como devotos do amor, de que ela é deusa; prezam a beleza e poderão vir a promover o culto de Vénus no Oriente, se por ela forem ajudados; Marte, para além da "ligação" a Vénus, preza o valor militar dos portugueses; Baco é, de certo modo, o “mau da fita” pois a sua psicologia é complexa: não aceita que os portugueses venham a ser bem-sucedidos no Oriente, vindo, um dia, a superar a sua própria fama nessas paragens.
Que os portugueses, humanos, o ultrapassem a ele, um Deus, é algo que não poderá aceitar nunca; tudo fará, por conseguinte, para os liquidar, ainda que numa atitude de revolta contra Júpiter e os Fados. Porque é, no fim de contas, lúcido, ele intui desde logo aquilo que mais tarde virá a dizer: se os portugueses chegarem à Índia tornar-se-ão deuses, reduzindo os deuses à sua dimensão de simples mortais.
Ele, Baco, não poderá consentir em tal inversão de valores, na desordem, no caos, na situação absurda que representaria uma total subversão da ordem do Universo. A presença da mitologia acompanhará a partir de agora toda a narração da viagem.
Os deuses serão intervenientes sempre ativos, quer assumindo funções de adjuvantes dos portugueses, quer de oponentes ao seu êxito.
Estarão no centro da trama que constituirá a verdadeira intriga do poema, e da sua luta dependerão avanços ou pausas na viagem.

Em "Os Lusíadas" estão presentes dois episódios mitológicos:

Concilio dos Deuses no Olimpo;



Concilio dos Deuses Marinhos;